
segunda-feira, 22 de novembro de 2010
sexta-feira, 19 de novembro de 2010
A LIÇÃO DE POESIA
1.
Toda a manhã consumida
como um sol imóvel
diante da folha em branco:
princípio do mundo, lua nova.
Já não podias desenhar
sequer uma linha;
um nome, sequer uma flor
desabrochava no verão da mesa:
nem no meio-dia iluminado,
cada dia comprado,
do papel, que pode aceitar,
contudo, qualquer mundo.
2.
A noite inteira o poeta
em sua mesa, tentando
salvar da morte os monstros
germinados em seu tinteiro.
Monstros, bichos, fantasmas
de palavras, circulando,
urinando sobre o papel,
sujando-o com seu carvão.
Carvão de lápis, carvão
da idéia fixa, carvão
da emoção extinta, carvão
consumido nos sonhos.
3.
A luta branca sobre o papel
que o poeta evita,
luta branca onde corre o sangue
de suas veias de água salgada.
A física do susto percebida
entre os gestos diários;
susto das coisas jamais pousadas
porém imóveis - naturezas vivas.
E as vinte palavras recolhidas
as águas salgadas do poeta
e de que se servirá o poeta
em sua máquina útil.
Vinte palavras sempre as mesmas
de que conhece o funcionamento,
a evaporação, a densidade
menor que a do ar.
JOÃO CABRAL DE MELO NETO
quinta-feira, 11 de novembro de 2010
ANDARES
Estou nos diários,
Dos dias que desapareceram com a semana
Falo dos gestos, do resto,
Sou um corolário
Um rosto complexo paregórico,
O movimento esquece-se do rumo
Sem chegada, sem partida
As notas tristes no calendário.
Tudo vai viver quando você passar
Tudo vai viver depois que você passar
Oh! Vida sempre nova
Tudo vive mesmo que não passe.
A sensação é um precipício
O sensacionalismo é contravenção.
Estou nos dias
Sou números
Doses incômodas
Cercos incômodos...
Mas a luta,
Ah! A luta...
Invocação!
-NO PALCO-
sexta-feira, 5 de novembro de 2010
O PASTOR MORIBUNDO
CANTIGA DE VIOLA
A existência dolorida
Cansa em meu peito: eu bem sei
Que morrerei...
Contudo da minha vida
Podia alentar-se a flor
No teu amor!
Do coração nos refolhos
Solta um ai! num teu suspiro
Eu respiro...
Mas fita ao menos teus olhos
Sobre os meus... eu quero-os ver
Para morrer!
Guarda contigo a viola
onde teus olhos cantei...
E suspirei!
Só a idéia me consola
Que morro como vivi...
Morro por ti!
Se um dia tu’alma pura
Tiver saudades de mim,
Meu serafim!
Talvez notas de ternura
Inspirem o doudo amor
Do trovador!
-NO PALCO-